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“Mente de adulta, talvez. Corpo de adolescente e jeito de… Criança. Sou dividida em três partes. Não quero me desapegar dos meus ursinhos só porque cresci. Crescer não significa largar brinquedos ou arranjar um namorado. Mesmo que eu tenha sessenta anos, ainda dá para manter uma áurea infantil. Vou continuar chorando como um bebê, pois quem não chora não tem as coisas. Sabe aquele biquinho bobo que fazia para conseguir as coisas quando era mais nova? Sabe aquele par de olhos brilhantes e carentes que o Gato de Botas do Shrek faz? Então, eu ainda uso eles. Ainda gosto de sentar de vez em quando e trocar o canal de novelas pelo de desenhos animados. Gostaria de poder continuar com mochilas escolares coloridas e cheias de chaveiros. De que me adianta os beijos e os garotos que se foram? De que me adianta aprender a fórmula da progressão aritmética se eu não pretendo usar essa merda no meu futuro? De que me adianta estufar o peito pra dizer que sou adolescente, se quase nunca concordam com minha opinião ou me dão atenção? De que me adianta poder usar salto alto e batom vermelho, se quando saio na rua só encontro trogloditas ao invés de homens? Vocês já sabem as respostas. De nada. Assim como casacos não servem para aplacar o frio no polo norte, ser adolescente não está me dando privilégio algum. Responsabilidades e mais responsabilidades. O tempo que eu tenho para me divertir está escasso e quase inexistente. O colégio suga todo o meu cérebro e ainda tem abusado que diz que estudante não faz esforço. Adolescente não é respeitado em quase nenhum quesito. Se adolescente senta no ônibus, pode estar passando mal, mas vai ter que dar o lugar para o idoso, pois os adultos trabalham e estão cansados. E os adultos ficam: “eu trabalho todo dia! Estou cansado!” Só faltam falar: “eu sou supremo e muito foda, como você não trabalha é uma bosta na vida!” Ai, que saco. Não acredito que passei minha infância todinha pedindo pra crescer e depois me deparar com essa palhaçada. O governo faz Enem, oferece desconto para quem frequenta colégio público, mas se esquece de que não somos máquinas. Não adianta oferecer estudo e deixar a diversão de fora. O governo deve pensar que somos como Thor, deuses fortes e poderosos, quando na verdade não passamos de humanos. Bem que Thor podia me oferecer o martelo dele, só assim eu poderia dar marteladas nesse pessoal que não nos conhece direito e aí ficaria tudo numa boa! Se liguem! Nem mesmo os cientistas são capazes de compreender a adolescência! Eu mesma não me compreendo às vezes! Alguém chama o garçom! Chama o garçom, por favor! E quando ele chegar, peça para me trazer uma dose bem grande de infância. Tô cansada de ser incompreendida e maltratada! Ao menos quando eu era criança tinham pena de mim!” — Mayne S, linhas gastas
(via arielvasconcelos)